VERSO 48
na ca kriyābhir na tapobhir ugraiḥ
evaṁ-rūpaḥ śakya ahaṁ nṛ-loke
draṣṭuṁ tvad anyena kuru-pravīra
SIGNIFICADO Deve-se entender com clareza a visão divina neste contexto. Quem pode ter visão divina? Divino significa que vem de Deus. A não ser que a pessoa atinja a posição de divindade, como um semideus, ela não poderá ter visão divina. E o que é um semideus? Declara-se nas escrituras védicas que aqueles que são devotos do Senhor Viṣṇu são semideuses (viṣṇu-bhaktāḥ smṛtā devāḥ). Aqueles que são ateus, isto é, que não acreditam em Viṣṇu, ou que reconhecem como o Supremo apenas a parte impessoal de Kṛṣṇa, não podem ter visão divina. Não é possível depreciar Kṛṣṇa e ao mesmo tempo ter visão divina. Ninguém pode ter visão divina sem se tornar divino. Em outras palavras, aqueles que têm visão divina também podem ver como Arjuna.
O Bhagavad-gītā descreve a forma universal. Apesar de que antes de Arjuna ninguém conhecesse tal descrição, agora, após este episódio, pode-se ter uma idéia da viśva-rūpa. Aqueles que são de fato divinos podem ver a forma universal do Senhor. Mas não pode ser divino quem não é um devoto puro de Kṛṣṇa. Entretanto, os devotos, que realmente estão na natureza divina e têm visão divina, não estão muito interessados em ver a forma universal do Senhor. Como se descreveu no verso anterior, Arjuna desejava ver Viṣṇu, a forma em que o Senhor Kṛṣṇa apresenta-Se com quatro braços, e ele estava mesmo com medo da forma universal.
Neste verso há algumas palavras importantes, tais como veda-yajñā-dhyayanaiḥ, que se referem a estudar a literatura védica e a aprender as regulações sacrificatórias. Veda refere-se a todos os vários textos védicos, tais como os quatro Vedas (Ṛg, Yajur, Sāma e Atharva) e os dezoito Purāṇas, os Upaniṣads e o Vedānta-sūtra. Podemos estudá-los em casa ou em qualquer outro lugar. De modo semelhante, para quem quer estudar o método de sacrifício, há os sūtras — Kalpa-sūtras e Mīmāṁsā-sūtras. Dānaiḥ refere-se à caridade que é oferecida às pessoas merecedoras, tais como aqueles que se ocupam no serviço transcendental amoroso ao Senhor— os brāhmaṇas e os vaiṣṇavas. Da mesma forma, “atividades piedosas” referem-se ao agni-hotra e aos deveres prescritos das diferentes castas. E a aceitação voluntária de algumas inconveniências físicas chama-se tapasya. Assim, a pessoa pode executar tudo isso — pode aceitar penitências corpóreas, fazer caridade, estudar os Vedas, etc. — mas se não for um devoto como Arjuna, não lhe será possível ver esta forma universal. Aqueles que são impersonalistas também imaginam que estão vendo a forma universal do Senhor, mas o Bhagavad-gītā nos ensina que os impersonalistas não são devotos. Por isso, eles são incapazes de ver a forma universal do Senhor.
Há muitas pessoas que inventam encarnações. Elas falsamente estabelecem que um ser humano comum é uma encarnação, mas isso é mera tolice. Devemos seguir os princípios do Bhagavad-gītā, caso contrário não há possibilidade de atingir conhecimento espiritual perfeito. Embora o Bhagavad-gītā seja considerado um estudo preliminar da ciência de Deus, mesmo assim ele é tão perfeito que nos capacita a obter um discernimento exato. Os seguidores de uma pseudo-encarnação talvez digam que eles também viram a encarnação transcendental de Deus, a forma universal, mas isto é descabido, porque aqui se afirma claramente que a não ser que se torne um devoto de Kṛṣṇa, não se pode ver a forma universal de Deus. Logo, devemos antes de mais nada tornarmo-nos devotos puros de Kṛṣṇa; só então será possível dizer que poderemos contar sobre a forma universal de acordo com o que vimos. O devoto de Kṛṣṇa não pode aceitar encarnações falsas ou seguidores de encarnações falsas.
